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Programação do 62º seminário do GEL


62º SEMINáRIO DO GEL - 2014
Título: O papel das línguas indígenas na formação do português brasileiro: um breve estudo sobre as línguas Apãniekrá e Apinajé
Autor(es): Wânia Miranda Araújo da Silva. In: SEMINÁRIO DO GEL, 62 , 2014, Programação... São Paulo (SP): GEL, 2014. Acesso em: 29/02/2024
Palavra-chave contato, contato, línguas indígenas
Resumo

No presente trabalho exploraremos a participação das línguas indígenas na formação do português brasileiro (PB) analisando duas línguas pertencentes ao tronco Macro-Jê: Apãniekrá e Apinajé. Negrão e Viotti (2008) ao analisar as estratégias de impessoalização do PB apontam para uma possível expansão da classe dos verbos de alternância causativa (fechar, afundar, abrir etc) caracterizados pela possibilidade de ocorrer tanto transitiva, quanto intransitivamente:

(1) Ricardo fechou a porta.

(2) Ø fechou a porta.

Observam que as mesmas possibilidades verificadas para esses verbos são atestadas em outros verbos transitivos:

(3) O xerox fica fazendo enquanto a gente vai almoçar.

(4) Com a reforma, meu jardim destruiu inteirinho.

Para uma possível explicação, chamam a atenção para dados do quimbundo, falado em Angola:

(5) Nzua a- -mu- -mono

John they (impessoal) him saw

John he was saw.

Conforme essa análise, a construção em (5), além de ser impessoal, mantém-se na forma ativa e o argumento do verbo não aparece em sua posição canônica, o que, de acordo com as autoras assemelha-se às construções do PB. Essa ampliação das construções impessoais no PB evidencia um distanciamento das demais línguas românicas e uma aproximação de línguas não-indo-europeias, como o quimbundo, por exemplo. Considerando que o quimbundo esteve entre as línguas que entraram em contato com o português durante a colonização, Negrão e Viotti (2008 :35) observam que não se pode deixar de lado a hipótese de que o contato entre o português europeu, no período de colonização, e as diferentes línguas africanas transplantadas para o Brasil, teve algum papel no processo na formação do PB. Adicionalmente a essa proposta, conjecturamos que as línguas indígenas também tiveram papel no distanciamento do PB em relação às demais línguas românicas. Para a questão da classe dos verbos de alternância causativa, uma pista complementar estaria na análise das construções causativas em línguas como Apãniekrá --- (6) e Apinajé --- (7):

(6) i-tε ø-ton mã h-aka

1-ERG 3-fazer DS 3-estar.branco

Eu o embranqueci.

(7) na ka ri ic-i-o anẽ pa rop kura

RLS 2 DEM 1-RP-fazer isso 1 cachorro bater

Você me fez bater no cachorro .

O aprofundamento da análise das construções causativas nessas línguas pode lançar luz às análises sobre a expansão da classe dos verbos causativos no português brasileiro, uma vez considerado que as línguas indígenas brasileiras, juntamente com as línguas africanas para cá transplantadas, tiveram algum papel na mudança do português brasileiro.