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Programação do 62º seminário do GEL


62º SEMINáRIO DO GEL - 2014
Título: Referência no discurso ficcional
Autor(es): Luiz Arthur Pagani. In: SEMINÁRIO DO GEL, 62 , 2014, Programação... São Paulo (SP): GEL, 2014. Acesso em: 02/03/2024
Palavra-chave referência, referência, designador rígido
Resumo

Nomes de personagens de ficção, como quaisquer nomes não denotativos, oferecem dificuldades para o tratamento referencial. Assim, para Frege ("Sobre o sentido e a referência", p. 137 da nova edição): A sentença "Ulisses profundamente adormecido foi desembarcado em Ítaca" tem, obviamente, um sentido. Mas, assim como é duvidoso que o nome "Ulisses", que aí ocorre, tenha uma referência, é também duvidoso que a sentença inteira tenha uma. Contudo, segundo Haack ("A Filosofia das Lógicas", p. 109): alguns sentiram que a atribuição de "falso" igualmente para, digamos, "Sherlock Holmes era um detetive" e "Sherlock Holmes era um policial", é bastante simplista, e não leva muito bem em conta a intuição de que a primeira está "correta" em algum sentido no qual a última não está. Diferentemente da solução pragmática da própria Haack (p. 111), podemos imaginar uma solução modal, se admitirmos que "Sherlock Holmes é um personagem de ficção" é verdadeira sobre a realidade (no mundo real, tal o conhecemos hoje, Sherlock Holmes é efetivamente um personagem ficcional criado por Conan Doyle em suas estórias), mas é falsa quando considerada nos mundos possíveis compatíveis com as estórias de Conan Doyle (lá ele não era um personagem de ficção); por outro lado, "Sherlock Holmes era um detetive" só é verdadeira nas estórias de Conan Doyle (lá, sim, ele investigava crimes que a Scotland Yard não conseguia), e é falsa nos mundos possíveis compatíveis com o mundo real (no mundo real, é impossível contratar Sherlock Holmes para desvendar qualquer crime). Ou seja, ao contrário do que Frege supunha, "Sherlock Holmes" teria denotação nos dois casos: no mundo real, denota uma personagem ficcional (uma entidade abstrata, mas tão existente quanto os números); nos mundos compatíveis com a ficção de Conan Doyle, denota um homem de carne e osso (tão concreto quanto qualquer toxicômano do mundo real). Uma solução trivial para esse problema referencial, mas ingênua, envolveria a postulção de nomes "Sherlock(n)'' para cada uma das suas atribuições referenciais; assim, "Sherlock(1)'' seria o personagem de ficção, "Sherlock(2)'' seria o detetive. Mas essa solução só se justificaria linguisticamente se pudéssemos encontrar um critério empírico para determinar essa proliferação homonímica. Finalmente, a questão da referência ficcional também coloca problemas interessantes para a ontologia dos designadores rígidos: Sherlock Holmes, apesar de ter características tão antagônicas no mundo real e no mundo ficcional (neste é concreto, naquele é abstrato), é sempre um único e mesmo indivíduo?