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Programação do 62º seminário do GEL


62º SEMINáRIO DO GEL - 2014
Título: Anáfora sentencial e anáfora textual: objetos irreconciliáveis?
Autor(es): Fabio Luis Fernandes Mesquita. In: SEMINÁRIO DO GEL, 62 , 2014, Programação... São Paulo (SP): GEL, 2014. Acesso em: 24/02/2024
Palavra-chave anáfora, anáfora, formalismo
Resumo

A dicotomia entre anáfora sentencial e anáfora textual (ou discursiva) nos permite visualizar grandes distinções teóricas na Linguística. No primeiro caso, as relações anafóricas seriam fortemente restringidas por fatores estruturais, como a sintaxe, por exemplo, enquanto no segundo, entram em cena fatores interpretativos como competência textual e conhecimento de mundo. Em um dos extremos desta polarização estaria, por exemplo, a gramática gerativa chomskyana, que, em sua formulação estrita, pretende estabelecer explicitamente os domínios nos quais as regras gramaticais se aplicam, o que dificultaria a expansão da análise ao nível discursivo. Questões de resolução da anáfora são geralmente descartadas, sendo o foco o conceito de correferência pretendida (que se opõe à correferência real). No outro extremo, podemos tomar como exemplo estudos de linguística textual que definiriam as relações anafóricas discursivas levando-se em conta o gênero textual e a intenção do autor, por exemplo. O objetivo principal do presente trabalho é defender a hipótese de que estas escolhas por diferentes domínios em trabalhos sobre anáfora decorrem fundamentalmente da tensão entre assunções metodológicas (formalismo sintático ou semântico, funcionalismo etc.) e recorte do objeto (sentenças isoladas, sentenças adjacentes, texto etc). Em outras palavras, a escolha por ferramentas estritamente formais acaba delimitando o alcance da explicação teórica, enquanto que a busca por questões discursivas torna o uso destas ferramentas inviável. Consideremos um exemplo vindo de dentro do âmbito formalista: o filósofo Gareth Evans, em seu textoPronouns (1980), critica justamente a análise chomskyana da anáfora limitada apenas ao nível sentencial. Tomemos a sentença “Even he has finally realized that Oscar is incompetent.”. Uma explicação em termos estritamente sintáticos, por exemplo, diria que a relação de c-comando entre o pronome he e o NP Oscar impediria a correferência pretendida entre estes dois elementos. No entanto, alega Evans, se considerarmos esta sentença num contexto no qual ela é precedida por Everybody has finally realized that Oscar is incompetent.”, haveria a possibilidade (ou tendência) de interpretar aqueles dois elementos como anafóricos, e, além disso, as restrições ainda poderiam ser descritas em termos estritamente formais. Este tipo de proposta, no entanto, não prosperou entre os linguistas chomskyanos até há bem pouco tempo, devido ao fato de que pilares teóricos geralmente incontestados da teoria de gramática gerativa transformacional dificultavam esta empreitada. A questão metodológica, portanto, vai se tornando mais crítica quanto mais o objeto tende a extrapolar a sentença em direção ao discurso.