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Programação do 62º seminário do GEL


62º SEMINáRIO DO GEL - 2014
Título: Poética do enigma em Affonso Ávila
Autor(es): Carolina Tomasi. In: SEMINÁRIO DO GEL, 62 , 2014, Programação... São Paulo (SP): GEL, 2014. Acesso em: 25/02/2024
Palavra-chave Literatura brasileira, Literatura brasileira, barroco
Resumo

A operação retórica utilizada no barroco, o “ornato dialético” – um artifício do plano do conteúdo –, tem continuidade no ornato da expressão na poética de Affonso Ávila. Mencionamos aqui ornato não em sentido pejorativo, mas no sentido de que as poesias de Ávila valem-se do obscurecimento das formas da expressão para buscar a duração do sensível, uma tentativa de prolongar o deleite estético da poesia. Tais propriedades configuram uma competência do enunciador, que condensa e concentra semelhanças e diferenças para encontrar uma forma nova e inesperada que impacte o enunciatário, causando-lhe maravilhamento (HANSEN, 2000, p. 318; ZILBERBERG, 2011a, p. 244). Se as produções poéticas no barroco eram chamadas de enigmáticas, entendemos que assim possa ser a poética de Ávila na modernidade, variando, porém, a intensidade da escolha da instância da enunciação pelas estratégias de “entravamento” do plano da expressão, emprestando, então, maior fôlego ao estético. Neste trabalho, objetivamos demonstrar como esses refreamentos funcionam na poesia de Ávila como ruptura de sentido, promovendo paradas concentradoras do objeto. O poema, sensivelmente concentrado, conta com uma oscilação tensiva: desaceleração inteligível e aceleração sensível. Um exemplo dessas estratégias de ruptura do plano da expressão são as operações anagramáticas. Em notas preliminares ao estudo dos anagramas, Saussure comenta que a poesia poderia se dar pelo entendimento de uma razão poética e não do ponto de vista de uma razão lógica (STAROBINSKI, 1974, p. 42-43): o inteligível seria assim regido pelo sensível. Os anagramas condensam fonemas, grafemas em novas unidades de sentido. Nas palavras de Pound (2008, p. 40), a poesia é “a mais condensada forma de expressão verbal”. E é com base na figura “condensada” que propomos uma visada semiótica para o entendimento da poética em Affonso Ávila. A força concentradora e tônica da poesia “Caminho Novo” (ÁVILA, 2008a, p. 310), sob análise nesta comunicação, produz um efeito de obscuridade: suas formas intensas, tônicas e compactadas, orientam o enunciatário na direção da busca de expansão do que está concentrado e opaco(ZILBERBERG, 2012). Nesse sentido, o enigma proposto é um desafio prazeroso ao inteligível. “Caminho Novo” representaria um exemplo de poema de re-formas, ora no sentido de estilhaçamento, ora no sentido de amálgama. Essas estratégias do plano da expressão articulam, portanto, um jogo de andamentos: o do prazer sensível, mais acelerado, engendrador de um prazer, mais desacelerado, na busca da apreensão inteligível.