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Programação do 63º seminário do GEL


63º SEMINáRIO DO GEL - 2015
Título: Éthos e páthos: entre paixão e memória
Autor(es): Norma Discini. In: SEMINÁRIO DO GEL, 63 , 2015, Programação... São Paulo (SP): GEL, 2015. Acesso em: 03/03/2024
Palavra-chave thos, ek-stase, corpo
Resumo

Tomando a noção de paixão em acepção semiótica, isto é, como efeito de sentido a ser descrito nos textos (considerados na relação entre a expressão e o conteúdo que os sustenta), e tomando a noção de memória em acepção fenomenológica, o que se vincula ao entrecruzamento do passado e do futuro na duração de um presente “vivido” na ordem da experiência sensível, examinaremos mecanismos linguísticos e discursivos constituintes de uma fábula (A Cigarra e a Formiga, de La Fontaine, 1997) e de poemas (L´être avant la lettre; Insular; Invernáculo, de Paulo Leminski, 2013), na medida em que os gêneros convocados favorecem condições de emergência de distintas paixões. Na fábula, teremos paixões judicativas, por meio das quais o éthos se impõe como um sujeito de posicionamento moralizante – sujeito circunscrito aos limites de um espaço que tende à oclusão – enquanto na totalidade de poemas se destacarão paixões de ek-stase (um lugar fora de...). Se, nos poemas, juntamente com a convocação feita de um genuíno pâtir, os gestos actoriais comprovar-se-ão ancorados numa memória afetiva, que traz à luz os dilaceramentos do presente “que dura” ao longo da percepção, na fábula – gênero em que a “cena enunciativa” se dilui para que se confirme, no interior da “cena genérica”, um corpo afeito à ilusão de transparência – tais movimentos remeterão à memória posta segundo uma descontinuidade que visa a grampear passado, presente e futuro (cada qual como um ponto fechado no tempo) em suposta sequência linear. Assim, na fábula, a memória voluntária se aliará ao éthos centralizado, fortalecedor tanto dos limites do tempo-espaço como da interdição e preceitos morais, para que, por contraste, possamos depreender do poema – gênero em que a “cena enunciativa” robustecida permite a configuração do estilo autoral – a memória involuntária, que firma o corpo do ator no espaço do limiar e no fluxo contínuo do tempo. Desse modo, corpos antípodas se confirmarão na construção contrária de mundos: quanto mais resvalarmos no éthos prescritivo da fábula, mais tangenciaremos o    estilo de Paulo Leminsky, já que, como diria Merleau-Ponty, se meu corpo toca outro corpo, ele se sente como corpo próprio, mas simultaneamente ele põe o outro (corpo).