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Programação do 63º seminário do GEL


63º SEMINáRIO DO GEL - 2015
Título: Por exemplo, o perdão
Autor(es): Elizabeth Harkot-de-La-Taille. In: SEMINÁRIO DO GEL, 63 , 2015, Programação... São Paulo (SP): GEL, 2015. Acesso em: 26/02/2024
Palavra-chave perdo, paixes, memria
Resumo

Para uns, o perdão se liga fortemente a noções do universo religioso tais como o ‘pecado’, a ‘redenção’, a ‘contrição’ mas também jurídicas, como a ‘absolvição’. O perdão é ou não concedido, é da alçada do poder, mas de uma abdicação de poder, um poder não castigar. Ainda no âmbito religioso cristão, entre os destituídos de poder, o perdão decorre de uma ordem – “Perdoai-vos uns aos outros...” e, assim, articula-se com o dever. Instaura-se como um dever abdicar de desejos, lembranças ou ações malevolentes, um dever não odiar (ou lembrar ou fazer mal). Do ponto de vista do perdoado, em ambos os casos as consequências de seu malfeito são amenizadas ou mesmo anuladas.

Para outros, o perdão se coloca em algum lugar entre o ressentimento e o esquecimento e, por isso, é hipócrita. Esse perdão é da ordem do querer, porém de seu esvaziamento, que pode ser total, quando na forma do esquecimento, ou parcial, quando combina este com o ressentimento. Caracteriza-se como um não querer odiar (ou lembrar ou fazer mal), isto é, como um querer fraco ou ausente que determina a inação do sujeito que perdoa. Esse tipo de perdão lembra a máxima de La Rochefoucauld, para quem a hipocrisia é o elogio que o vício faz à virtude. O perdão seria então evocado para dignificar o esquecer, o ‘deixar para lá’, o ‘o que vem de baixo não me atinge’.

Haveria no mundo ocidental um perdão da ordem da presença forte de um querer, como o defendido no budismo?   Haveria, no lugar de um poder não castigar, de um dever não odiar (ou lembrar ou fazer mal), ou ainda de um não querer odiar (ou lembrar ou fazer mal), um perdão associado a um querer não odiar (ou lembrar ou fazer mal)? Que consequências cada tipo de perdão – cada modo de liquidação da falta – engendra, do ponto de vista do sujeito que perdoa, do sujeito perdoado e da coesão ou ameaça à sociedade?

Esta comunicação discute, do ponto de vista semiótico, os diferentes perdões examinados em “Le Pardon : briser la dette et l'oubli”, de Olivier Abel, publicado em 2008 na Coleção Autrement, assim como reflete sobre os desdobramentos de cada perdão, no nível dos indivíduos e da sociedade.