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Programação do 63º seminário do GEL


63º SEMINáRIO DO GEL - 2015
Título: "Não obstante" x "apesar de": variação e gramaticalização
Autor(es): Larissa Polyana de Meneses Ferreira. In: SEMINÁRIO DO GEL, 63 , 2015, Programação... São Paulo (SP): GEL, 2015. Acesso em: 29/02/2024
Palavra-chave gramaticalizao, apesar de, lingustica histrica
Resumo

Com base na perspectiva de gramaticalização (HOPPER & TRAGOTT, 1993), este trabalho tem como objetivo identificar a trajetória de mudança que levou a estrutura formada pelo substantivo pesar (a pesar de) a se consagrar no português hoje como apesar de - locução prepositiva com valor concessivo e, ainda, como apesar de que - locução conjuntiva. Além disso, fizemos uma análise comparativa das construções apesar de e não obstante, de forma a verificar se o processo de mudança envolvendo a estrutura apesar de interferiu na gramaticalização da expressão não obstante no português. Para isso, utilizamos o Corpus do Português (DAVIES & FERREIRA, 2006) para coleta de dados de apesar de do século XIV ao XIX, mesmo banco de dados utilizado por Pereira (2011; 2012) para análise da expressão não obstante. Vimos que o processo de mudança do apesar de pode ser caracterizado como gramaticalização, já que o substantivo pesar, um item lexical, mudou para uma locução prepositiva, apesar de, item gramatical e, depois, para locução conjuntiva, apesar de que, item ainda mais gramatical. Entendemos a construção apesar de que é mais gramatical por ser mais limitada sintaticamente ao sempre iniciar orações com verbos flexionados e, ainda, por ser uma estrutura mais fixa: não encontramos exemplos que mostrem algum elemento entre os itens apesar, de e que. Semanticamente, podemos dizer que houve mudança de sentido mais concreto para mais abstrato na mudança do substantivo pesar para as construções apesar de e apesar de que. O sentido de “remorso, arrependimento, tristeza”, entendido aqui como mais concreto, passou ao sentido de concessão, mais abstrato, que se estabelece na relação entre dois segmentos da sentença. Foi obedecida, portanto, a ordem da esquerda (+lexical) para a direita (+gramatical) típica de um percurso de gramaticalização. Na comparação entre apesar de e não obstante, observamos que, do século XV ao século XVII, tratava-se de duas formas diferentes usadas para expressar a mesma ideia de concessão. Entre os séculos XVIII e XIX, o apesar de começa a ser mais usado que o não obstante como locução concessiva, determinando, assim, uma queda significativa na frequência de ocorrência do não obstante com sentido de apesar de no século XIX (cf. PEREIRA, 2011 e 2012).