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Programação do 63º seminário do GEL


63º SEMINáRIO DO GEL - 2015
Título: Modo, tempo e aspecto em complementos oracionais do português brasileiro
Autor(es): Patrcia de Araujo Rodrigues. In: SEMINÁRIO DO GEL, 63 , 2015, Programação... São Paulo (SP): GEL, 2015. Acesso em: 23/02/2024
Palavra-chave modo, tempo aspecto, complementos oracionais
Resumo

Este trabalho examina a distinção amplamente aceita entre predicados perceptivos (1), causativos (2) e  epistêmicos (3), em termos da realização finita versus não-finita da oração subordinada e das categorias semânticas e gramaticais associadas a esse contraste. Em particular, analisaremos o problema da codificação da modalidade e do tempo, e a relação entre tempo e aspecto nas encaixadas.

(1)  

a Maria viu que a criança dormiu. (realis)

b  Maria viu que a criança dormisse.  (irrealis)

c  Maria viu para a criança dormir. (irrealis)  

d  Maria viu a criança dormir.  (percepção direta)

(2)  

a  Maria disse que a criança dormiu. (realis)    

b  Maria disse à criança que dormisse.  (irrealis)

c  Maria disse para a criança dormir. (irrealis)  

d  Maria disse dormir pela manhã.  (habitualidade)

(3)  

a  Maria fez (com) que a criança dormisse. (irrealis)    

b  Maria fez a criança dormir.  (irrealis)

Como hipótese de trabalho, assumimos, seguindo Chomsky (1995, 2001) e Rizzi (1997), que a estrutura oracional finita manifesta crucialmente as categorias C e T. Já as orações infinitivas admitiriam diferentes estruturas sintáticas, que corresponderiam a diferentes interpretações (Wurmbrand, 2001).

Os verbos ver e dizer, no caso dos complementos indicativo, subjuntivo e infinitivo introduzido por “para”, apresentam codificações diferentes para a categoria modalidade (cf. (1a-c) e (2a-c)). O complemento infinitivo nu, porém, é não marcado para modalidade (cf.  (1d) e (2d)), já que codifica uma leitura direta no caso de ver e uma leitura habitual no caso de dizer. Conclui-se que esses verbos não selecionam lexicalmente a modalidade, que, no caso do  indicativo, do subjuntivo e do infinitivo com “para”, seria marcada no núcleo funcional C. Já a oração infinitiva nua, não sendo marcada para modo, também não seria marcada para tempo; as leituras aspectuais obtidas para essas orações permitiriam analisá-las como orações reduzidas, projetadas pelo núcleo de Aspecto.

No caso dos verbos causativos, a complementação com a oração finita e com a infinitiva não acarreta contraste de interpretação quanto à codificação da modalidade (cf. 3). A opção de usar a oração finita na posição de complemento é uma opção restrita, em oposição ao uso da oração infinitiva, amplamente encontrada. Nesse sentido, a expressão morfossintática da complementação de verbos causativos está sujeita à mudança linguística. Conclui-se, assim, que os verbos causativos são marcados lexicalmente para a modalidade e que o contraste na realização da finitude é determinado em termos das propriedades das categorias funcionais envolvidas.