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Programação do 63º seminário do GEL


63º SEMINáRIO DO GEL - 2015
Título: Letramento digital e agentividade
Autor(es): Rodrigo Prates Campos. In: SEMINÁRIO DO GEL, 63 , 2015, Programação... São Paulo (SP): GEL, 2015. Acesso em: 24/02/2024
Palavra-chave Letramento digital, Lingustica aplicada, Etnografia
Resumo

Em seu livro de 1726 (As Viagens de Gulliver) Jonathan Swift descreve um artefato imaginário que daria à “mais ignorante das pessoas” (p. 135) a capacidade de escrever livros de filosofia, poesia, política, lei, matemática e teologia. Bastaria puxar algumas alavancas que blocos de madeira com palavras impressas cairiam em pequenos nichos formando frases. Puxando-se as alavancas novamente outras frases seriam formadas, e assim por diante. Como indica Goldsmith (2011), a máquina de Swift é uma crítica à nossa crença cega no poder transformador da tecnologia. Ao mesmo tempo Swift criou uma máquina que retira dos seres humanos a agência imbuída na escrita e a atribui à máquina, ou aos não-humanos, como o quer Latour (1994).

No campo onde desenvolvi a pesquisa para minha tese de doutorado encontrei uma situação muito semelhante de transferência da agência dos humanos aos não-humanos, computadores pessoais, mediada pela interface gráfica do Windows Vista©. Empregando a metodologia etnográfica de observação participante, notei que quando alunos de um curso básico de informática encontram grande dificuldade de interpretar os signos da interface gráfica, desistem de interagir com o computador. Em muitos casos essa desistência é apenas fruto da falta de motivação para o aprendizado. Mas em outros casos essa motivação existe, e quando a incompreensão da interface provoca uma resposta inesperada do sistema, isto é, quando a interface mimetiza um certo grau de agência, o aluno perde a sensação de que está no controle da interação, isto é, de que o sistema computacional está apenas respondendo às suas ações, e interrompe a interação perplexo. Isso está expresso nas elocuções dos alunos, como “Professor, eu me perdi!”, “o que está acontecendo aqui?”, “porque ele (o computador) não faz o que eu quero?”. Ouve-se exclamações como essas com frequência no telecentro que foi contexto da pesquisa. Partindo da observação etnográfica e de noções acerca da agência humana/não-humana (GIDDENS, (1979)2003; LATOUR, (1987)2000, 2005) e de letramento (GEE, 2002; BARTON e HAMILTON, 1998; STREET, 2003 e STREET e HEATH, 2008) pretendo explorar a relação entre as tecnologias digitais interativas, letramento e agência, no âmbito das práticas de letramento de aulas de informática ministradas em um Telecentro de Campinas para pessoas com pouca ou nenhuma experiência com computadores.