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Programação do 63º seminário do GEL


63º SEMINáRIO DO GEL - 2015
Título: A construção gramatical de adjetivo adverbializado do português brasileiro: por que falamos bonito mas bonito mas não argumentamos estatístico
Autor(es): Victor Tadeu Antas Virginio. In: SEMINÁRIO DO GEL, 63 , 2015, Programação... São Paulo (SP): GEL, 2015. Acesso em: 03/03/2024
Palavra-chave Adjetivo adverbializado, Gramtica de Construes, Funo pragmtica
Resumo

No português brasileiro, observa-se frequentemente o uso de adjetivos em posição pós-verbal, com função adverbial semelhante à do advérbio canônico. No entanto, nem todos os adjetivos parecem poder exercer esta função, como mostram os pares a seguir:

 

(1) a. O diretor entrou na sala e falou rapidamente.

b. O diretor entrou na sala e falou rápido.

 

(2) a. O João cantou lindamente.

b. ? O João cantou lindo.

 

(3) a. Eles tentaram inutilmente.

b. *Eles tentaram inútil.

 

Este trabalho busca compreender a distribuição aparentemente idiossincrática dos adjetivos em função adverbial, conforme ilustrado pelos exemplos acima. Para isso, assume-se a perspectiva teórica da Gramática de Construções (GOLDBERG, 1995; 2006; CROFT, 2001), segundo a qual o conhecimento linguístico do falante pode ser descrito como um vasto e articulado inventário de construções gramaticais (isto é, pareamentos convencionais de forma e significado).

A primeira etapa da pesquisa consistiu na delimitação do seu objeto. Neste momento, postulamos a existência de duas construções distintas de adjetivo adverbializado, as quais denominamos Construção Modalizadora de Adjetivo Adverbializado (CMAA) e Construção Circunstancial de Adjetivo Adverbializado (CCAA). A CMAA diferencia-se da CCAA por indicar a postura epistêmica de um sujeito cognoscente (não necessariamente o falante) em relação ao evento expresso, como em (4a), enquanto a CCAA indica uma circunstância do evento, como em (4b).

 

(4) a. Se eu fosse chamado para essa festa eu ia fácil.

b. Ontem o meio de campo da seleção jogou fácil.

 

Após a identificação das diferenças entre as duas construções, passou-se a investigar especificamente a CCAA, com foco sobre a sua produtividade – o fato, já notado acima, de que nem todos os diferentes adjetivos são igualmente aceitáveis nessa construção. Para explicar essa distribuição aparentemente idiossincrática, em resumo, sustenta-se que a produtividade parcial da CCAA esteja relacionada a três fatores: (i) aspectos estatísticos – frequência de uso do “adjetivo adverbializado” na CCAA; (ii) aspectos semânticos - restrição a itens que indiquem delimitação (“histórico”, “estatístico”), tempo (“recente”, “breve”), frequência (“frequente”, “regular”) e intensidade (“intenso”, “torrencial”) e (iii) aspectos pragmáticos – exigência de que o “adjetivo adverbializado” constitua, por si só, o foco informacional da sentença. Atualmente, a pesquisa encontra-se em fase de aplicação de experimento off-line, que tem a finalidade de testar as restrições de nível pragmático.